Já algum tempo venho me incomodando com todas as formas
discriminativas com as quais a mídia trata o corpo feminino. São propagandas de
produtos – consumidos principalmente por homens –, cenas de programas
televisivos, sem esquecer a imensa parafernália pornográfica.
Fico me perguntando: qual é o imaginário que boa parte dos
homens fazem da mulher, a partir de tal influência? E a mulher? Como se vê?
Como tal tais representações invadem a relação sexual?
Historicamente, a pornografia não esteve estritamente ligada
às imagens de consumo, mas também ao desejo sexual. Segundo Medeiros (2008, p.
31):
Pornografia deriva do
grego pórne (“prostituta”) ou pórnos (“que se prostitui, depravado”),
referência inequívoca aos “excessos” libidinosos e aos profissionais do sexo.
Prostituta, michê, puta, garoto(a) de programa, scortboy são
denominações (reguladas pela sociedade) de corpos oferecidos à diversidade de
apetites, para o exercício profissional (e não amoroso) da sedução e, assim,
conceito muito mais próximo do obsceno que do erótico. Tendo sido,
provavelmente, o primeiro bem de consumo da história humana, a prostituição é a
face pública do desejo, da libido e da sedução, consentida ou interditada
conforme os pudores da época. Deixemos claro que nem sempre a prostituição foi
caracterizada como depravação. Para ficarmos em apenas um exemplo, basta
citarmos as gueixas e cortesãs japonesas, performers tanto do prazer
sexual quanto do prazer estético. Pornografia também significa a imagem
do corpo que se expõe para provocar o desejo de outro corpo e, portanto, do
corpo objetificado: porno-grafia, “prostituição em imagem”, “depravação através
de imagens”.
É interessante quando o autor
fala que pornografia é também expor a imagem do corpo para provocar o desejo de
outra pessoa, objetificando-o. Ora, e não é isto o que ocorre? Objetificado
está o corpo feminino. Tornou-se objeto de uso, principalmente uma imagem, um
símbolo, pelo qual se tem liberdade total de “usar”.
Indo mais além, se o corpo
feminino está rodeado de simbologias de “uso”, de que forma a Mulher vê-se na
sociedade? E na relação sexual?
Certo dia uma amiga me disse como
ela se incomodava com as ideias dos homens sobre como devem ser as mulheres na
cama. Fiquei instigada com seu desabafo e parei pra pensar: tendo em vista que maioria
dos homens teve e ainda têm a cultura de assistir vídeos e ler revistas
pornográficas, é bem fácil de imaginar “qual” tipo de mulher boa parte de
nossos “machos” desejam para a relação sexual.
Mulheres sexys, com corpo bem
definido, malhado, bunda e seios grandes... Rosto de capa de revista... Ah! E
ainda tem a performance: tem que saber de tudo e mais um pouco sobre sexo oral,
vaginal e anal, usar brinquedos e “aguentar” o porradão das penetrações... Uma
Deusa! Uma Gabriela... Uma mulher que não existe... Foi inventada.
Esses discursos estão presentes
no imaginário de tod@s, pois eles são diariamente reproduzidos em todos os
espaços sociais, principalmente por meio da TV, Internet e bens de consumo.
Vamos nos apropriando de tais imagens sem ao menos nos questionar se realmente
é isso que somos ou queremos ser – sem levar em consideração que é algo
impossível existir um padrão, uma fôrma onde todos são iguais...
E como se sente a mulher e o
homem que não corresponde aos padrões?
Qual liberdade existe na relação
sexual de pessoas que apenas transam de acordo ao que ditam no mundo
pornográfico e midiático?
Se faz mesmo necessário estar
abert@ para conhecer a Si mesmo mais profundamente... Ir além do que os
discursos sociais, culturais, religiosos e do consumo – que gritam o tempo todo
como devemos ser – para conhecer
nossas singularidades e possibilidades de transcendências.
Acredito mesmo na liberdade de
Ser...
Cada um/uma de nós somos
particularidades e diversidades...
E plenamente possíveis de
transcendências e autenticidades...
Axé!!
Referência:
MEDEIROS, Afonso (org.). O Imaginário do Corpo: entre o erótico e o obsceno:
fronteiras líquidas da pornografia. Raimundo Martins (ed.). – Goiânia: FUNAPE,
2008. 1v. – (Coleção desenredos; 4).
Imagens: Google




Realmente o visionario dos homens quanto a mulher e o sexo esta diretamente ligada ao prazer ao sensualismo exarcebado que exala em tudo que nos rodeia principalmente na midia nada foge:desde comercial de margarina a comercial de automovél!Ja virou clichê...O que era pra ser casual virou obrigatório.Eu como mulher me sinto um filé a ser degustado no açougue!onnde eu tenho a obrigação de ser carne de primeira senão vô virar comida pra cachorro!O ser humano a cada dia perde-se no que compõe a sua real essencia!
ResponderExcluirOlá Anônima, prazer imenso em ver teu comentário.
ExcluirÉ exatamente dessa perca que você fala que me sufoca: a essência. Vivemos numa sociedade padronizada, consumista e aprisionada em discursos miseráveis que inventam "quem" devemos ser e o que devemos fazer pra ser feliz...
Acredito mesmo que buscar nossas particularidades e o que nos compõe, mesmo indo de contra a quase tudo que é imposto, é nos tornar mais livres e possivelmente, mais felizes com o que temos e quem realmente somos.
Sendo assim, vale mais a pena se abster de muitas relações sexuais e "curtir" a vida só, do que servir de um bom filé pra idiotas egoístas e incompreensíveis.
Cheiro Nega!!
Sabe o que me revolta mais adriana? que as mulheres tem consciencia de que fazem papel de objeto, algumas se revoltam com isso, mas a massa pre fere vestir a carapuça e estão lá na frente dos shows de funk e pagodão, "Dando a Patinha, Balançando o rabinho". A pornografia tem sim um contexto pejorativo, vejo que a nudez é uma bela forma de arte e se perde em meio a tanta "putaria" que as pessoas fazem.
ResponderExcluirE como isso me revolta também viu Rafik!!
ExcluirMe dá uma agonia enorme ao ver muitas mulheres, principalmente jovens, "adorando" essas influências dos meios de comunicação midiáticos, principalmente as música cheias de letras pejorativas e discriminativas.
Vão no ritmo e não percebem que estão sendo violentadas simbolicamente... Ou até percebem, né? Mas não se importam.
Já ouvi de alguns homens: "elas gostam e querem ser tratadas como objeto... Tapas e a porra mais"... E fico me perguntando: Elas? Elas quem?
Logicamente, ninguém é igual a ninguém e só temos a possibilidade de conhecer bem as pessoas com quem nos relacionamos a partir do momento que nos conhecemos melhor ainda...
Porém, hoje, muita gente nem busca se auto-conhecer, quanto mais se dar o trabalho de conhecer outra pessoa...
Tá tudo tão automático, tão rápido, que já se vai direto para o ato sexual, esquecendo-se que o prazer maior não está só ali, mas em todo um contexto de sedução, estar com @ outr@ e dos sentimentos que envolvem @s parceir@s...
Só sei que é preciso abrir espaço para o auto-conhecimento e o respeito por Si mesm@ e pel@ outr@ urgentemente...
Caso contrário, será difícil contruir boas relações, principalmente as sexuais...
Maravilhosa discussão heim?
Cheiro Rafik!!
"Uma Deusa! Uma Gabriela... Uma mulher que não existe... Foi inventada".
ResponderExcluirPena, mas em meio a esta crise identitária, sexual e tantas outras, as mulheres acabam por se fazerem personagens na cama. Agradar o homem na sociedade em que vivemos, é ainda a melhor forma de ser querida, desejada. Isso nos aprisiona tanto,a nós mulheres, que chego a me angustiar...
Outrora fomos escravas dos homens, mas não nos emancipamos ainda, hoje temos outros senhores iguais, ou ainda quem sabe, mais cruéis. Somos reféns do machismo, dos esterótipos criados para nós, da sociedade consumista etc, etc. E NOSSOS desejos, inclusive sexuais? Talvez nem saibamos afirmar com veracidade o que é NOSSO, porque as vezes confunde-se com o desejo do outro sobre nós. Entende? [desabafo]
Frente a tudo isso, é duro andar na contramão e ousar ser diferente, custa caro não se submeter às ideologias, é preciso estar disposta a sofrer a pena.
E Salve-se quem puder!
Que bom que encontrei este espaco aqui! [uffffaaaa..]
Que bom!! Rrsrsrsrrs
ExcluirEis o meu desejo: que seja espaço de desabafo, de conhecimento, de reflexões e de partilhas.
Se te entendo? E muito Daiane!!
É preciso sempre analisar e refletir o que nossa sociedade e cultura dizem a todo tempo sobre Quem somos e/ou Como devemos ser...
Além de muitos outros desafios que enfrentamos como Mulheres, o maior deles é construir nossa autenticidade - nossa identidade (feminina, étnica, sexual, política, etc.), que ao mesmo tempo que é particular, também é e se forma de maneira coletiva.
Um desafio constante...
Amplexo Dai Matos!!